Foto do manancial de Piraquara, que abastece a cidade de Curitiba, em período de cheia

Além da pandemia de Covid-19, outro assunto que tem despertado o alerta de especialistas e autoridades públicas é a estiagem. O mês de março já é considerado o mais seco em Curitiba, desde 1998, quando o Simepar iniciou as medições na capital. Algumas medidas rigorosas já vêm sendo tomadas há semanas, como é o caso do rodízio no abastecimento de água.

As mudanças climáticas vêm alterando o regime das chuvas em todo o planeta e causando o que chamamos de “eventos extremos da natureza”, que afetam a cidades e seus habitantes. Temos uma tendência a grandes chuvas em um curto espaço de tempo, que geram danos incalculáveis com as enchentes ou pouquíssimas chuvas e estiagens, que afetam o abastecimento hídrico causando inúmeros transtornos sociais e econômicos.

Em momentos de estiagem costumamos lembrar e colocar em prática ações como o uso moderado e sem desperdício de água, mas pouco, ou quase nada, se fala da necessidade da manutenção de infraestruturas naturais. A cobertura vegetal tem um papel essencial na garantia de água e no fluxo de chuvas, entre outas tantas funções.

O princípio, em linhas gerais, é muito simples. A presença de maior área natural favorece processos como evapotranspiração, que aumenta a umidade do ar, favorecendo a incidência de chuvas. Garante a manutenção e a recarga de água em lençóis freáticos, evitando assim também a sedimentação de resíduos em leitos de rio, por exemplo. A remoção de áreas naturais causa o que costumamos chamar de “efeito dominó” ou “efeito cascata”, provocando uma série de danos ao meio ambiente, ao clima, ao fluxo de chuvas e assim, a toda a população.

A Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental – SPVS, há mais de 20 anos, desenvolve o Programa Condomínio da Biodiversidade – ConBio. A iniciativa busca promover a manutenção e recuperação de áreas de vegetação nativa em ambientes urbanos e periburbanos a partir da parceria com proprietários de áreas, iniciativa privada e prefeituras locais. A maioria dos reservatórios que abastecem os grandes centros urbanos encontra-se no entorno das cidades e garantir a conservação destes locais por meio de infraestrutura natural assegura melhoria nos serviços ecossistêmicos providos por estas áreas (como a provisão e fornecimento de água), criando o que chamamos de cidades resilientes.

O estabelecimento de parcerias é essencial neste processo. O poder público tem o papel fundamental de criar mecanismos e políticas públicas de incentivo, tanto aos proprietários que ainda possuem cobertura vegetal em suas propriedades, quanto formas de estímulo para que a iniciativa privada também apoie estas ações. Assim, os proprietários e empresas terão a condição de deixar um legado a toda sociedade. E, as instituições da área ambiental, como a SPVS, tem a função de servir de ponte entre estes atores, auxiliando e indicando as melhores formas de atuação neste processo. Além, é claro, de toda a contribuição para conscientização e sensibilização por meio de ações de educação para conservação da natureza.

Este não é um processo capaz de reverter o quadro atual de imediato, mas sem dúvidas é uma ação mais barata e duradoura para se garantir resiliência das cidades e dos negócios. A história de 20 anos de trabalho conjunto mostra que se os bons resultados não existem, sem dúvida, o quadro poderia ser ainda mais grave. Além disso, a manutenção de áreas naturais deve ser permanente e incentivada por outros projetos e outros parceiros, incluindo etapas de restauração de áreas já degradadas, por exemplo.

O ConBio é um modelo que tem condições de replicabilidade e de ganho de escala, que pode ser utilizado em outros estados e por outras instituições para multiplicação de áreas naturais. Somente com consciência e persistência no trabalho de conservação da biodiversidade será possível a construção de cidades resilientes, capazes de minimizar e resistir e se recuperar facilmente dos eventos naturais extremos, que tendem a ser cada vez mais comuns.

* Texto de autoria de Nicholas Kaminski (coordenador do Programa Condomínio da Biodiversidade – ConBio) e Marina Cioato (assistente de comunicação da SPVS)