Predadores naturais, interferências humanas e mudanças climáticas podem ter influenciado nos resultados do período 2019/2020

Durante o período reprodutivo 2019/2020, o Paraná registrou o menor número de nascimento de papagaios-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis) dos últimos dez anos. Além da baixa taxa de nascimentos, o número de filhotes que conseguiram se desenvolver e alçaram o primeiro voo – o que os especialistas chamam de sucesso reprodutivo – foi de apenas 15 aves. A estimativa se baseia no monitoramento de 105 cavidades aptas para formação de ninhos no litoral do estado.

Desde 1998, a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) monitora anualmente o período reprodutivo do papagaio-de-cara-roxa, que acontece entre os meses de outubro a março. Os monitoramentos são realizados pelos técnicos do Projeto de Conservação do Papagaio-de-cara-roxa, com auxílio de moradores locais, voluntários e apoio da Fundação Loro Parque.

No Paraná, a equipe registrou 74 ninhos ocupados, com postura de 155 ovos e nascimento de 69 filhotes. Contudo, apenas 15 filhotes se desenvolveram com sucesso. No litoral sul de São Paulo, 23 ninhos foram monitorados, sendo registrada a ocupação de 5 deles, a postura de 9 ovos e nascimento de 7 filhotes, cinco tiveram sucesso no desenvolvimento.

Os resultados surpreenderam a equipe de pesquisadores. Segundo Elenise Sipinski, coordenadora do projeto, os números são 34% menores que os registrados no ano passado e se assemelham aos resultados anteriores à implantação de ninhos artificiais. “Este período reprodutivo pode ter sido influenciado por diversos fatores. Tivemos uma predação maior que no período anterior, alterações climáticas que levaram temperaturas a extremos, aumentando a possibilidade de doenças, diminuição da oferta de alimentos, entre outras”, explica Sipinski.

Além de causas naturais, ameaças como captura de filhotes para venda ilegal também podem ter influenciado a reprodução dos papagaios-de-cara-roxa, de acordo com Roberta Boss, técnica do projeto. “Mesmo com o monitoramento, ainda registramos muitos casos de roubo de filhotes de papagaios, especialmente, no litoral de São Paulo. Ameaça esta que se agrava com a derrubada ilegal de árvores utilizadas pelos papagaios para a nidificação”, afirma.

Buscando suprir a falta de ninhos naturais, a equipe técnica do Projeto de Conservação instala ninhos artificiais de madeira e de PVC em árvores altas da floresta. A implantação começou em 2003, para auxiliar na reprodução da espécie e consequentemente contribuir com a manutenção da população de papagaio-de-cara-roxa no litoral do Paraná. Foram instalados mais de 100 ninhos artificiais em áreas insulares e continentais utilizadas pela espécie. Em São Paulo, essa atividade começou em 2016 e tem aproximadamente 20 ninhos instalados.

Construção de porto pode agravar situação

Os baixos resultados do período reprodutivo e o fato da espécie ser endêmica de uma pequena porção de Mata Atlântica, ou seja, só ocorrer em uma estreita faixa deste bioma, aumentam a preocupação com a conservação dos papagaios-de-cara-roxa. No litoral do Paraná, a possibilidade de construção de um porto na cidade de Pontal do Paraná poderia tornar os números ainda mais preocupantes.

Em um levantamento realizado em 2018, a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) avaliou que a construção do empreendimento afetaria pelo menos 4 mil papagaios-de-cara-roxa, número que representa quase a metade de toda a população.

Os especialistas apontam ainda o prejuízo econômico trazido pelo empreendimento, uma vez que a área afetada inclui a Ilha do Mel, segundo maior destino turístico do estado do Paraná e importante dormitório e sítio reprodutivo do papagaio-de-cara-roxa. “Esse empreendimento poderá destruir uma área extensa de planície em Pontal do Paraná, além do impacto na Ilha do Mel. São áreas prioritárias para a espécie pois nelas há uma concentração de guanandis, árvore essenciais para a alimentação, reprodução e abrigo dos papagaios.  Preservar este território, ter o apoio de moradoras locais e o financiamento de outras organizações  são quesitos essenciais para que espécies únicas no mundo tenham sua sobrevivência garantida”, explica Elenise Sipinski.

Outras espécies conhecidas, como a onça-pintada, a anta e os queixadas dependem da manutenção das florestas desta região, conhecida como Grande Reserva Mata Atlântica – maior bloco contínuo do bioma, com mais de 2 mil hectares de florestas, que garantem o equilíbrio de fauna e flora, a manutenção de culturas e cidades históricas, rica gastronomia e desenvolvimento local.