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Sala de Imprensa
Notícias
05.11.2007
Conservar a Natureza no Paraná - o custo de estar nadando contra a maré.
Não é de hoje o descompasso na direção dada ao uso das terras do território paranaense e uma agenda mínima que permita a conservação da natureza. O posicionamento irresponsável e inconseqüente sempre teve supremacia a iniciativas pautadas em visões de futuro e de interesse público. Ganhou quase sempre o descontrole, a avidez e a conivência criminosa pela dilapidação de nosso patrimônio natural.
Assim chegamos onde estamos: um Paraná cada vez mais estropiado em termos de áreas naturais representativas. E sem nunca ter recebido uma política para a conservação da natureza - ao invés disto, ações desencontradas e demagógicas fazem parte de nosso cotidiano há décadas. Por um lado vendendo uma imagem de seriedade para desinformados e, pelo outro, deixando a porteira escancarada para as mais variadas estripulias que aqueles que usufruem ilegalmente do uso de nossas áreas naturais, sem nenhum constrangimento.
Apesar de ser cansativo bater na mesma tecla tantas vezes, é impossível deixar de se fazer referência aos miseráveis menos de 0,8% de remanescentes bem conservados de Floresta com Araucária no Paraná (dado de 2001 da UFPR e do Ministério do Meio Ambiente, e já fortemente defasado). Esta informação é um desdobramento direto das gestões públicas passadas, que tiveram a responsabilidade de evitar que chegássemos a esta situação vergonhosa. Sequer estiveram perto deste intento.
Ressalte-se que a destruição de nosso patrimônio natural já vem trazendo inúmeros prejuízos econômicos aos paranaenses. Ao mesmo tempo em que gera lucros de curto prazo a partir da usurpação que continua a ocorrer (para quem tiver dúvida sobre estas afirmações, seria útil buscar detalhes sobre o significado e a importância do que chamamos genericamente de "serviços ambientais"). E as conseqüências da indisponibilidade dos mesmos para todos nós.
Duas vertentes pesam sobre nossos ombros a respeito desta situação: somos mesmo ignorantes e não estamos nem aí para esta tal de conservação da natureza e/ou sabemos razoavelmente bem o que está acontecendo, mas não dispomos de qualidades cidadãs suficientes para gerar alguma tentativa de mudança. Tudo indica que as duas limitações paralisantes fazem parte de nosso dia a dia. E é de se lamentar que tal pobreza de espírito esteja nos atingindo tão duramente e durante tanto tempo.
Mas que fique muito claro: estamos perdendo as últimas chances de buscar meios de reverter o quadro de destruição que o próprio mercado econômico insiste em fomentar. Ações imediatas e que dêem resultados concretos precisam ser colocadas em prática. Basear-se nas estruturas e métodos atuais para lutar contra o aniquilamento de nossas áreas naturais, está comprovado, é ingenuidade, conivência e conveniência. Também não é possível acreditar que setores representativos da economia, que nunca assumiram compromissos com a agenda da conservação, agora, no curto prazo, mudem de comportamento de maneira voluntária e na escala necessária. Ou que os órgãos ambientais, com sérios vícios de conduta e estruturas absolutamente incipientes, dêem conta desta tarefa. Estamos sim entregando as galinhas às raposas, como de praxe.
É preciso mudar a forma de atuar do Governo Estadual em relação a conservação de áreas naturais - notadamente as inseridas no interior de propriedades privadas e que estão desaparecendo independentemente de contingentes de fiscalização, das Leis ou da "consciência" da sociedade. Este processo está falido sem o amparo de outras estratégias. Fiscalização e licenciamento, por exemplo, necessitam de um banho de creolina duplo, e disso todos nós já sabemos, não é de hoje. Mas é preciso ir além, e uma agenda de consenso entre poder público e proprietários precisa ser construída imediatamente - exemplos de como fazer isto não faltam.
A necessidade de atitudes responsáveis pela sociedade civil é muito urgente. Prova disso é o teatro envolvendo o caso do IAP em Ponta Grossa, amplamente divulgado dias atrás, que está longe de ser um fato isolado. O câncer da imoralidade no setor que controla licenciamentos e fiscalização precisa ser definitivamente extirpado - a parcimônia e a falta de compromisso com as mudanças, não permitem que isto aconteça faz muitos anos.
Só que, nesta oportunidade, acusam de liderar todo este processo espúrio, justamente a pessoa que foi designada pelo Governo do Estado, em função de seu histórico exemplar, para tentar limpar a sujeira do licenciamento ilegal, da fiscalização corrupta e dos madeireiros inescrupulosos. Não é possível aceitarmos esta situação ridícula sem protesto. Sem revolta. Sem impormos mudanças. Não importam quais sejam os argumentos que estejam permitindo este ato de sandice contra uma pessoa que durante anos e anos representou, como muito poucos neste Estado, uma resistência radical contra desatinos e crimes - de todo o tipo - do poder público e do setor privado contra a natureza.
A honestidade e o caráter de Elma Romanó não estão em discussão. Mas estão, sim, em discussão o moral de nossa sociedade e a profunda e inaceitável crise deste Governo, que não encontra o caminho para proteger o patrimônio Natural do Estado do Paraná. Ou não quer encontrar.
Passou a hora para que atitudes fossem tomadas. Todos os limites foram ultrapassados. E a omissão deste governo está fazendo vítimas que não merecem sequer imaginar-se na situação em que uma de suas funcionárias mais capazes e dedicadas se encontra. O poder público continuará sem tomar alguma atitude mais consistente, acreditando que plantando mudas nativas e comprando aviões estará impedindo a consumação de uma catástrofe? Onde estão os resultados práticos da gestão estadual em relação à Floresta com Araucária? Só estamos perdendo mais e mais áreas naturais. E muitas com o aval desta gestão. O que mudou? O que vai mudar? Continuarão a desaparecer nossas últimas áreas naturais sem que nada efetivo seja feito? Não há mais tempo para erros e inconsistências.
Envergonhem-se paranaenses. Não existe fundo do poço mais lamentável do que este em que vivemos nos dias de hoje. O orgulho que ainda resta fica a encargo, e de forma exemplar, de pessoas como Elma Romanó. Que optaram por lutar, enfrentar e desafiar, como ninguém, a podridão que nos cerca e nos asfixia pelo cheiro de esterco. No entanto, seu ganho e reconhecimento estão sendo oferecidos neste momento. É assim que temos tratado os verdadeiros paranaenses. Com a ignorância que pauta a pouca civilidade.
Continuaremos a fazer de conta de que isto não é conosco? Aqui é lugar de gente sem sangue nas veias e que não faz panelaços, não é mesmo?
Seguimos assim. Sem alma. Inexpressivos.
Obrigado Elma Romanó por sua coragem e resistência. Você é um exemplo extraordinário e tem o reconhecimento merecido por todos que conhecem sua trajetória absolutamente inatingível.
Clóvis Ricardo Schrappe Borges
Diretor Executivo
Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental - SPVS
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