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05.06.2008
 ARTIGO: O setor empresarial é o ator principal para garantir a conservação da natureza (áreas naturais e biodiversidade)? - Por Clóvis Borges

Uma aproximação inusitada e pouco perceptível está em curso, muito embora cercada de desafios difíceis de transpor.


Os negócios e a conservação da natureza, dentro de padrões convencionais, são temas absolutamente desconectados. Quando não, expostos a antagonismo reticente, que gera não apenas efeitos danosos ao meio ambiente, mas intermináveis conflitos acerca das formas tradicionais de desenvolvimento e suas conseqüências.

O peso dos interesses econômicos, incrustados historicamente nos poderes constituídos, via de regra, aniquila esforços direcionados a garantir a conservação da biodiversidade do planeta, não sendo possível, até agora, incluir este tema nas demandas mais prioritárias da sociedade. Facilmente se percebe a falta de avanços em escala em relação a medidas visando uma maior conciliação entre desenvolvimento e conservação. A polaridade ainda é soberana e dá poucos espaços para mudanças significativas, justamente por não haver esta intenção. O demonstrativo, nem sempre qualificado, já cumpre o papel de justificar uma preocupação com o assunto.

Mesmo assim, o tema da conservação ganhou espaço. E passou a ser discutido e explorado de muitas formas.Um fenômeno de mobilização observado nas últimas décadas, permitiu a inclusão de agendas amigáveis ao tema. Mas um detalhe crucial não colabora com a geração de resultados mais concretos: a falta de critérios, conceitos mais refinados e base técnica, aliados a iniciativas descompromissadas e pouco responsáveis.

Ações com enfoque conservacionista praticamente ajustaram-se ao convencional, aderindo a uma rotulagem de fantasia para apresentar uma lição de casa mal feita, apesar das externalidades, atraente. Na premissa de que qualquer coisa serve, em todos os cantos podem ser observadas medidas voltadas ao tema da conservação, com raros casos em que o alvo é realmente atingido. O resultado é duplamente desfavorável. Com o irrisório recurso investido em ações de conservação da natureza, obtêm-se uma boa parte de produtos de valor muito discutível. E são estas medidas que acabam ganhando espaços na mídia, autodefinindo-se como salvadoras. Deseducam e anulam possíveis articulações mais consistentes da sociedade, incapaz de obter uma leitura transparente do que realmente precisa ser feito.

Difícil identificar qual dos prejuízos é mais criminoso, o mau investimento ou sua propagação. Ainda que timidamente, adentramos numa nova fase, nos últimos anos.E que pode representar a chance de trazer melhores cenários a situações, em muitos casos, já desesperadoras para a protecao de áreas naturais e sua biodiversidade. Trata-se de uma mais recente percepção de parte de setores mais evoluídos do setor empresarial, que começa a reconhecer uma relação direta e importante entre a destruição da natureza e os resultados dos negócios. A perda econômica fruto da destruição começa a ser identificada e reconhecida.

Ainda distantes de justificativas éticas e de interesse público, mas pragmáticas o suficiente para gerar um novo movimento na direção de investimentos para a conservação, estas empresas querem conservar de fato. Agora, sem a flexibilidade de conteúdos vazios, uma vez que o que passa a interessar é a estagnação e reversão do prejuízos decorrentes da perda ou diminuição do que vem sendo chamado de "Serviços Ecossistêmicos". Os serviços ambientais ou ecossistêmicos, apesar de mensuráveis, em geral nunca são adequadamente contabilizados nos negócios ou na gestão pública, como um ativo com valor econômico. Portanto, explorados até além dos limites sem maiores preocupações.

A oferta e qualidade de água, a biodiversidade, o equilíbrio climático são apenas alguns dos serviços ecossistêmicos mais próximos do conhecimento público, e basicamente são responsáveis pela manutenção da vida na Terra e, naturalmente, da nossa economia. Uma excelente forma de agregar mais interesse e compromisso com um tema negligenciado ao longo de nossa História.

O balizamento defendido nesta visão mais recente coloca a conservação da natureza, e não apenas ações indiretas na área ambiental, na linha de frente das prioridades de investimentos em ações estratégicas, abrindo um novo mercado. Um mercado que visa minimizar os impactos da destruição do Patrimônio Natural para a manutenção da saúde econômica de corporações. Essa visão, embora um tanto egoísta, reflete regramentos de comportamento da própria economia e também, reconheçamos, de nossa própria espécie. Uma direção que tem chances, em mais algum tempo, de contaminar em amplitude significativa os demais setores da sociedade.

Como de praxe, há muitos setores vivendo fases anteriores a esta. E boa parte das empresas continuará relutando em admitir o óbvio, podendo ter que assimilar mudanças a contragosto ou mesmo desaparecer, mais à frente. Mas esta não é uma curva de alterações rápidas. É demandadora de tempo e paciência para chegar a uma escala de resultados significativos. E isto é justamente o que não poderia acontecer em muitas áreas do Planeta já em estado crítico e precisando de medidas preservacionistas imediatas. Em boa parte destas regiões, continuam intensas as pressões pela destruição destes remanescentes. E os instrumentos de controle, quando existem, têm se mostrado frustrantes e insuficientes.

A percepção da importância das áreas naturais pode estar sendo tardia na maioria dos casos. Vivemos uma corrida contra o relógio que ainda não conta nem com governos nem com o setor privado minimamente comprometidos.

Se vamos amargar o final de nossas últimas áreas naturais sem as esperadas medidas cabíveis, também estaremos trazendo de arrasto uma invejável coleção de mazelas, a serem pagas a partir da indisponibilidade dos serviços ambientais. Por sinal, o que já ocorre, em diferentes graus, em nosso dia a dia.

O desafio é muito maior do que exemplos e percepções de uns poucos sobre a necessidade e as formas adequadas de integrar a conservação da natureza em nosso dia a dia. Precisamos mudar rápido e em escala. As próximas gerações não terão muito mais o que fazer se nossas responsabilidades de hoje não forem determinadamente assumidas.

 
 
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